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Cinema e Psicanálise: 4 Filmes para Entender Conceitos de Lacan

 

  A teoria do psicanalista francês Jacques Lacan é conhecida por sua densidade e complexidade. O que muitos não sabem é que o próprio Lacan recorria frequentemente à arte, incluindo o cinema, em seus seminários para ilustrar conceitos fundamentais como o Olhar, a Angústia, o Gozo e o Sinthoma. Se você quer compreender a psicanálise lacaniana de forma mais palpável, o cinema funciona como um laboratório perfeito. A narrativa de um filme opera, em muitos sentidos, como a apresentação de um caso clínico. Neste texto, analisamos 4 obras cinematográficas citadas ao longo da obra de Lacan. Prepare-se para ver esses clássicos sob uma nova perspectiva teórica. (Atenção: o texto a seguir contém spoilers!)

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1. Hiroshima, Meu Amor (*Hiroshima mon amour*, 1959)

Direção: Alain Resnais | Roteiro: Marguerite Duras

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Sinopse

Uma atriz francesa viaja a Hiroshima para filmar uma obra sobre a paz e vive um caso intenso com um arquiteto japonês. O encontro nos destroços da cidade reconstruída reaviva na protagonista a memória traumática do seu primeiro amor: um soldado alemão assassinado em Nevers durante a Segunda Guerra Mundial. O luto coletivo da cidade devastada pela bomba atômica funde-se ao luto pessoal e inconfessável da personagem.

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A Conexão Lacaniana: O Trauma e o Objeto a

O filme ilustra com perfeição a compulsão à repetição. A protagonista é incapaz de assimilar ou esquecer a perda original (o trauma de Nevers) através da linguagem. Sem conseguir traduzi-la em palavras, ela atualiza a dor no presente, projetando-a no corpo do amante japonês.

Lacan aponta aqui a presença do objeto a: um "resto" do trauma que escapa radicalmente à simbolização (o inominável da guerra, o toque, as cinzas). Ela tenta recuperar esse objeto perdido colando sua própria angústia na figura do Outro, demonstrando que o trauma é, em sua essência, uma falha na capacidade do sujeito de nomear o que viveu.

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Onde Lacan cita o filme?
Seminário 10: A Angústia (Capítulo XXV)
Seminário 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise

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2. Monsieur Verdoux (1947)

Direção: Charlie Chaplin

 

Sinopse

Henri Verdoux, um pacato e dedicado caixa de banco, é demitido após décadas de serviço no contexto da Grande Depressão. Para sustentar a esposa inválida e o filho, ele cria um "negócio" sombrio: assume identidades falsas para seduzir, casar e assassinar viúvas ricas, roubando suas fortunas com frieza e precisão contábil.

 

A Conexão Lacaniana: A Clivagem e a Moral Perversa

A obra coloca em cena a cisão do sujeito (clivagem) e antecipa a leitura de Lacan sobre o imperativo moral kantiano. Verdoux justifica o assassinato sistemático como um "dever" inquestionável para proteger sua família. Ele separa completamente o afeto de suas ações, utilizando a lógica utilitária do capitalismo como álibi.

Lacan utiliza o personagem, inspirado no assassino real Landru, para demonstrar que, quando a lei moral é cumprida de forma cega e desprovida de humanidade, ela escorrega para uma estrutura perversa e letal. Além disso, analisa como uma "falsa personalidade" ou um sintoma pode funcionar como um nó (sinthoma) que impede a desestruturação psíquica total do sujeito.

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Onde Lacan cita o filme?
Seminário 23: O Sinthoma (pág. 52, Ed. Zahar)

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3. O Império dos Sentidos (Ai no korida, 1976)

Direção: Nagisa Oshima

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Sinopse

Baseado em um caso real ocorrido no Japão nos anos 1930, o longa acompanha Sada, uma ex-prostituta, e Kichizo, o dono do estabelecimento onde ela trabalha. Os dois se apaixonam, abandonam a vida social e se isolam em um quarto para viver uma rotina obsessiva de sexo. A busca por sensações cada vez mais extremas culmina em asfixia erótica, morte e castração física.

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A Conexão Lacaniana: O Gozo Letal e a Inexistência da Relação Sexual

O filme encena concretamente a famosa máxima de Lacan: "não há relação sexual". O casal tenta uma fusão plena, buscando a completude e a união absoluta no corpo do outro. Como essa completude é impossível no registro do Simbólico (pois a linguagem e a castração sempre impõem um limite), eles tentam alcançá-la no registro do Real. Essa escalada rompe com o "princípio do prazer" (que busca o equilíbrio e a preservação) e mergulha no Gozo (jouissance) absoluto, cujo único desfecho possível é a destruição da vida.

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Onde Lacan cita o filme?
Seminário 24: L'insu que sait de l'une-bévue s'aile à mourre (Inédito em edição oficial em português)​

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4. A Idade do Ouro (*L'Âge d'or*, 1930)

Direção: Luis Buñuel (Co-escrito com Salvador Dalí)

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Sinopse

Obra-prima do surrealismo, o filme não segue uma narrativa linear. O fio condutor é a paixão avassaladora de um casal de amantes. No entanto, todas as tentativas de consumar esse amor são violentamente interrompidas por figuras de autoridade, convenções burguesas, a Igreja Católica e situações absurdas.

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 A Conexão Lacaniana: O Desejo versus O Grande Outro

A Idade do Ouro traduz em imagens o conflito estrutural entre o Desejo humano e a Lei do Grande Outro. O desejo é indomável e disruptivo, mas esbarra constantemente nas interdições da cultura, da religião e da ordem social. Além disso, a violência latente nas cenas surrealistas dialoga com os estudos iniciais de Lacan sobre o Estádio do Espelho. O filme expõe como as relações humanas na esfera do Imaginário são marcadas por rivalidade, agressividade e fragmentação antes que a lei da linguagem estabeleça uma ordenação na psique.

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Onde Lacan cita a obra?
Escritos (no texto "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose")
Críticas escritas por Lacan na revista surrealista Le Minotaure (década de 1930)

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O cinema é apenas uma das portas de entrada para compreender a clínica e a teoria de Jacques Lacan. Então faça a pipoca e venha decifrar o que esses grandes diretores revelam sobre o desejo humano, boa sessão de teoria e cinema!
 

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